quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

OUT HERE (1969): MAIS ROCK PESADO EM ÁLBUM DUPLO



Das 17 canções inclusas no álbum duplo Out Here (primeiro lançamento da banda pela gravadora Blue Thumb) há pelo menos seis que mostram o quão variada uma formação do Love poderia ser em sua vertente folk-blues-hard-rock. Mais do que Four Sail, o álbum acentua a utilização de solos nas canções e traz a guitarra rítmica de Lee mais avançada na mixagem do que jamais esteve. As letras de Lee são reflexivas e diretas, suas intenções são claras e os trocadilhos são mínimos. “Eu sempre acreditei em dizer a verdade”, disse ele certa vez. “A verdade sempre ocupou grande parte das minhas canções”. As seis faixas de destaque em Out Here são “I’ll Pray For You”, “Listen To My Song”, “Doggone”, “I Still Wonder”, “Run To The Top” e “Willow Willow”.

A banda soa como se estivesse genuinamente se divertindo em “I’ll Pray For You”, principalmente nos “uh-huhs”, com inflexões de Elvis Presley no coro. A melancólica e excelente “Listen To My Song” é uma tocante e bela declaração de Lee. A guitarra acústica trabalha semelhantemente ao violão melancólico de “Alone Again Or”, ainda que aqui o negócio seja a substância do pedaço ao invés da disposição de espírito. “They told me that you sold me and you see It’s just a little question in my mind” (“Eles me disseram que você me enganou e você vê que isso é apenas uma pequena questão em minha mente”), canta Lee com uma voz que apresenta um tom quase confessional.

A gentilmente dedilhada “Doggone” (que existe em duas versões, uma com um solo de bateria e outra sem) mostra Lee em um estado de espírito reflexivo. Conforme a canção flui para um suave groove no estilo “Manic Depression”, Lee mantém a solitude, cantando “Once I had a singing group / Singing group’s now gone / Now I’ve got another group / It didn’t take too long” (“Certa vez eu tive um grupo musical / Esse grupo musical agora se foi / Agora eu tenho um outro grupo / E isso não vai durar muito”). Trata-se de um testamento para a efetividade de Lee, em um cenário simples e direto.

“I Still Wonder” é o raro exemplo desta formação do Love se aventurando no terreno da harmonia vocal. Ironicamente, Lee une a suavidade associada a Crosby, Stills & Nash com uma letra sombria “situada no meio de um pesadelo diário”. E a entrega vocal de Lee é fascinante, uma das mais refinadas performances vocais dele já gravadas.

A otimista “Run To The Top” é conduzida pelo aviso de Lee aos seus seguidores: “If living’s what you’re doing / Then why don’t you be free?” (“Se viver é o que você está fazendo / Então por que você não é livre?”). Lee restaura a ambição melódica da primeira formação do Love em “Willow Willow”. Usando a figura de uma flor como uma metáfora de mulher, ele canta: “Up from the ground came the irresistible top half of you” (“De cima do chão veio a irresistível metade de cima de você”). Novamente, nota-se um suntuoso trabalho de guitarra acústica.

Nos Estados Unidos, Out Here recebeu pouca atenção por parte do público, alcançando o posto 176 das paradas, mas, no Reino Unido, o álbum foi lançado pela gravadora Harvest (a mesma do Pink Floyd) e acabou alcançando o posto 29 das paradas britânicas de LPs. O êxito alcançado no Reino Unido fez Lee embarcar para uma turnê pela Europa em 1970, e, entre um show e outro, aproveitou para fazer alguns trabalhos de estúdio com Jimi Hendrix.

Out Here também representou um encerramento de ciclo no trabalho de Lee. Era o último disco do Love nessa década. O mundo estava vivendo uma era de transformações radicais em diversos campos. Os anos 1960 estavam acabando, deixando para a posteridade um rastro de legados perenes. Lee relembra com carinho desse período: “Os loucos dias dos anos 60 foram os dias do Conhecimento, no que me diz respeito. E ganhando porções de dinheiro, cara, aquele era realmente o tempo onde eu queria estar (risadas). Eu gostava dessa parte. Mas você sabe, quando você pensa que tem tudo, e assim são como as coisas funcionam... Quem teria imaginado que não existiriam mais hippies? Sabe? E quem teria imaginado que toda a Geração do Amor, toda aquela multidão do Amor, teria acabado daquele jeito? Jesus, eu nunca. Ainda amo aqueles dias, cara. Quer dizer, eu era um cara dedicado, dedicado a tudo o que eu acreditava. E ainda vivo a minha vida desse mesmo jeito, sabe? Eu tento viver livre. O tempo é realmente muito importante, é uma coisa muito importante que nós estamos fazendo aqui. Estas são as nossas vidas, certo?”.

FALSE START (1970): PARCERIA COM JIMI HENDRIX







O segundo e último lançamento do Love pela gravadora Blue Thumb foi o álbum False Start, mais famoso pela participação de Jimi Hendrix em uma das faixas (“The Everlasting First”) do que por qualquer outra música. Lee se reuniu com Hendrix durante a turnê britânica do Love em 1970. “Existem várias jams que nós gravamos juntos, mas esta é a única canção”, diz Lee. Há três versões [de ‘Everlasting First’]. Jimi quis refazer, mas eu fiquei satisfeito já com o primeiro take”.

Mas False Start tem outro destaque. “If you’re rolling down your favorite street / Roll one time for me” (“Se você está rolando abaixo em sua rua favorita / Role uma vez por mim”), canta Lee em “Keep On Shining”, uma canção que mostra o quanto Lee se afastou de Hollywood. O mundo que Lee descreve estava desaparecendo, o mundo corporativo estava ganhando terreno e, segundo Lee, apenas aqueles que “cooperavam” poderiam ganhar um pedaço do bolo. Os dias do Love estavam quase acabando.

VINDICATOR (1972): O PRIMEIRO ÁLBUM SOLO DE ARTHUR LEE E OS ÚLTIMOS SUSPIROS DO LOVE



Em 1972, dois anos depois do lançamento de False Start, Lee gravou o seu primeiro disco solo, Vindicator, para a gravadora A&M, com uma banda de apoio chamada Band Aid (Jimi Hendrix cunhou este título a uma reunião musical de vida breve que juntava ele, Lee e Steve Winwood). O disco levou adiante as inclinações hard rock de Arthur Lee. “Eu ouvi Jimi Hendrix e Sly Stone dizendo que queriam vindicar seus passados”, diz Lee. “[Meu álbum] era para vindicar a música e todo aquele negócio. Todos os músicos com os quais eu trabalhei [nas últimas formações do Love] não se importavam muito com o trabalho de guitarra nos álbuns. Mas eu sempre achei que se eu aproveitasse o meu tempo trabalhando na guitarra, eu melhoraria como músico. Mas eu não gosto muito de prolongar certas coisas, de ficar parado. Gosto de trabalhar com músicos diferentes tocando diferentes tipos de música”.

A faixa de destaque do álbum Vindicator é “Everybody’s Gotta Live”, considerada a “Instant Karma” de Lee. Ele declama a letra de forma simples e com convicção em um estilo emocionante que nem sempre pode ser detectado nas gravações do Love. Esta é uma das canções que sempre estiveram presentes nas apresentações ao vivo de Lee, e ele costumava emendar fragmentos de canções de outros compositores (como Bob Marley) para realçar o poder e o sentimento sincero da canção.

Lee fez um segundo disco solo, Black Beauty, em 1973, pela gravadora Buffalo, de propriedade de Paul Rothchild. Entretanto, a gravadora faliu antes que o álbum completo pudesse ter sido lançado. Então, Lee optou por ressuscitar o Love com uma nova formação para gravar o álbum Reel To Real, lançado pela RSO Records, em dezembro de 1974. Desta vez, o Love era Arthur Lee (vocal), Melvan Whittington (guitarra), John Sterlin (guitarra), Sherwood Akuna (baixo) e Joey Blocker (bateria). O LP, essencialmente de soul music, foi um fracasso comercial, apesar de conter uma excelente regravação de “Everybody’s Gotta Live”. Pelo que parecia, a gravadora preferiu concentrar suas forças em promover outra volta (Eric Clapton) e em desenvolver a carreira de outro grupo (Bee Gees). Parecia também que o príncipe do pop psicodélico orquestrado estava encontrando dificuldades em sobreviver em uma era onde predominava o rock pesado e outros estilos que fugiam de suas influências.

Em 1976, Lee ainda estava em forma, mas preferiu abandonar o meio musical e passou a trabalhar como pintor de residências na parte centro-sul de Los Angeles. Em 1978, a formação original do Love se reuniu brevemente, mas Arthur Lee não se adaptou às mudanças que o tempo operou. Como relatou Bryan Maclean: “Ele é uma daquelas pessoas que gostariam de retornar aos tempos quando tudo era uma doce novidade”. Sobre seu ex-companheiro de banda, Lee comentaria mais tarde: “Bryan, não... bem, sim, a banda funcionou com Bryan, eu não vou dizer que não funcionou com Bryan... (pausa) Mas era como se ele tivesse que tomar uma decisão com a sua própria vida, cara, era da sua livre vontade fazer o que ele quisesse com a própria vida. Ele era um bom compositor, do jeito que eu entendo a música – Eu gosto de seu estilo de composição e eu gostava dele como pessoa. Mas havia coisas que ele deveria ter feito por conta própria. As pessoas tem que encarar as suas viagens pessoais, suas mudanças, e descobrirem o que elas realmente querem fazer da própria vida. E ele escolheu - pelo que eu entendo - que ele não queria mais trabalhar comigo. Mas se ele quiser mudar de ideia, bem, nunca se sabe. E eu realmente não preciso de Bryan para pagar as minhas contas”.

O OSTRACISMO DE ARTHUR LEE NA DÉCADA DE 1980



Em 1981 apareceu um EP pirata chamado Arthur Lee, disponível para venda apenas na Europa (pela Da Capo Records), até que a gravadora norteamericana Rhino adicionasse faixas extras e, assim, surgisse um álbum inteiro incluindo covers de The Bobbettes (“Mr. Lee”) e Jimmy Cliff (“Many Rivers To Cross”). Um ano depois, a gravadora MCA lançou Studio/Live, uma coletânea de material gravado pelo Love da fase False Start (1970). Também em 1982, a Rhino lançou Love Live, gravação de um show ocorrido em 1978, uma das reuniões da formação original do Love que Maclean e Lee promoveram no final dos anos 1970.

Maclean liderou a sua própria Bryan Maclean Band durante as décadas de 1970 e 1980. Por várias vezes a formação da banda incluiu a sua meia-irmã Maria McKee, ex-vocalista do grupo Lone Justice e, posteriormente, uma cantora solo. Maclean gravou vários números gospel e lançou um álbum em 1977. No Natal de 1998, aos 52 anos de idade, Maclean morreu, vitimado por um ataque cardíaco.

Sobre a década de 1980, Lee afirma: “Eu fiquei fora de cena por uma década. Eu retornei à minha velha vizinhança para cuidar do meu pai, que estava morrendo de câncer. Eu estava cansado de assinar autógrafos. Eu estava cansado de perder o meu dinheiro. Eu estava cansado de Hollywood. Eu estava cansado de ouvir cada banda nova me lembrar de alguma canção que eu já havia composto. Eu estava simplesmente cansado”.

A REDESCOBERTA DO LOVE E OS ÚLTIMOS DIAS DE ARHTUR LEE



Lee reapareceu finalmente em 1992, com uma nova leva de gravações intitulada Arthur Lee & Love pela gravadora francesa New Rose. Esse disco inclui “Five String Serenade”, uma canção regravada com grande efeito pela banda Mazzy Star dois anos depois. O disco não foi distribuído nos Estados Unidos.

O retorno de Lee nos anos 1990 proporcionou a ele mais viagens do que no auge do Love. Em 1993 ele fez suas primeiras apresentações em Nova Iorque e na Inglaterra depois de duas décadas. Em 1994, a gravadora Distortions lançou um compacto gravado por Lee contendo “Girl On Fire” e “Midnight Sun”. E uma performance com uma seção de cordas no The Garage, de Londres, mostrou que Lee não perdeu nem um pouco da sua magia ao apresentar o material clássico do Love.

Em junho de 1994, ele apareceu no Royal Albert Hall, em Londres, na Inglaterra, na celebração do décimo aniversário da gravadora Creation. No mês seguinte, ele já estava trabalhando com uma nova banda: “O nome da banda era Baby Lemonade, mas, quando estavam comigo, eles mudavam o nome da banda para Love”. Lee também se apresentou com ex-membros do Das Damen, sempre sob o nome Arthur Lee & Love. Em maio de 1995, ele foi agraciado com um Prêmio Lifetime Achievement, dado pela Berkeley Popular Culture Society, uma unidade associada com a Universidade da Califórnia, em Berkeley.



Estava tudo indo muito bem com Arthur Lee até ocorrer uma reviravolta em sua vida. Essa reviravolta obrigou Lee a interromper bruscamente a sua carreira. Há muitas versões dessa história, mas o fato é que Lee foi condenado, em 1996, a oito anos de prisão por porte ilegal de arma de fogo. Embora ninguém tenha sido machucado e nenhuma propriedade tenha sido destruída no incidente que levou à sua condenação, a lei da Califórnia (que prevê reclusão para reincidentes) garantiu-lhe uma sentença de prisão, pois, na ficha criminal de Lee havia “duas incidências de assalto e posse de drogas” ocorridas nos anos 1980.

Enquanto esteve preso, Arthur Lee recusou várias propostas de entrevistas feitas por jornalistas e pesquisadores. A única visita que Lee recebeu na prisão foi a de seu advogado, que estava preparando um recurso para aliviar a sua pena. O recurso foi aceito e Lee foi libertado em dezembro de 2001. Tempos depois, ele se revoltaria contra o seu advogado: “Foi uma conspiração total; ele se mostrou ser um advogado incompetente e ele deveria ter morrido no pinto do seu próprio pai. Eu supostamente teria disparado a arma no ar. Quando eles fizeram o teste para captar os resíduos de pólvora, o resultado foi negativo. Não havia nada lá. Mas esse cara se recusou a cooperar. E eu coloquei a minha vida nas mãos desse filho da puta. Eu não cooperei. Eu não aleguei culpa e tudo isso. Eu servi meu tempo e servi bem. Eles fizeram da minha vida uma cela (risadas, citação da letra de 'Live And Let Live'). Todas as vezes que eu penso nas canções que eu compus, como as de Forever Changes, elas realmente me perseguem". A partir de 2002, Lee passou a fazer shows em vários cantos do mundo acompanhado de uma nova encarnação do Love.

Em 2003, foi lançado um item obrigatório para qualquer admirador do Love: o CD duplo Forever Changes Concerts, que inclui um vídeo de “Alone Again Or”. Trata-se da recriação ao vivo da obra-prima lançada em 1967. Esse lançamento ajudou a perpetuar o nome do Love como uma das maiores bandas psicodélicas da história do rock. Infelizmente, Arthur Lee não viveu muito tempo depois do lançamento desse CD. Ele sofria de leucemia e, em 3 de agosto de 2006, sua morte veio colocar um ponto final em mais de quarenta anos de história do Love, uma banda que tem o seu lugar garantido no Olimpo do Rock.

Sempre um espírito incansavelmente criativo, Lee continuou perseguindo a máxima expressão de sua arte até o fim. “Conforme eu olho para trás”, disse ele certa vez, “a melhor coisa que eu já fiz [em qualquer tempo] está no ponto final. Talvez eu esteja errado, mas eu ainda produzirei o álbum que eu quero”. Ele produziu. A sua obra é o seu legado. Arthur Lee, todos os fãs de rock psicodélico ao redor do mundo agradecem por sua existência. Que vida!

O PENSAMENTO MUITO VIVO D ARTHUR LEE



“Estou cagando se você disser que eu sou um viciado ou um punk ou um cão ou um gato. Eu não me importo”.

“Eu estive próximo de criar a música no rock”.

“Eu descobri que não é inteligente para as pessoas falarem sobre religião e política. Não é nada inteligente para um entretenedor falar sobre isso. Mas eu estou cagando para tudo isso”.

“Se você quiser se exercitar e perder peso, vá ver o 'N Sync ou a Britney Spear (sic) ou aquela irmã do Michael Jackson que fez plástica no nariz”.

“Jim Morrison queria ser eu. Ele foi até a beirada, pelo que eu me lembro, o mais alto que ele pensou que eu poderia estar no palco e ficou tentando ser como eu... Ele era somente uma pobre alma”.

“Tom Hanks? Ele é um bom ator, mas o problema é que ele tem a testa muito grande”.

“Michael Jackson? Ele deu a si mesmo o título de Rei do Pop. Ele é um grande artista, mas por quanto tempo mais você vai querer vê-lo fazendo o moonwalk? O Rei do Pop? O Rei do Pop? Que porra de pop? Se há uma pergunta que eu gostaria de fazer para Michael Jackson é esta, bem curta: 'Que porra é essa que você está fazendo?'”.

“Eu simplesmente sinto muito por Elvis Presley ter pensado que ele era um rei. Porque não há porra nenhuma de rei neste mundo. O único rei que há é Deus”.



“Vou te dizer: Esta é a melhor banda que eu já tive. Eu tenho uma orquestra inteira que soa exatamente como Forever Changes. Eu planejei me aposentar quando eu tivesse 21 anos. E 35 anos depois, minhas gravações são mais bem cotadas do que Beach Boys e Sgt. Pepper's. Aqueles caras estavam todos certos. Os Beatles foram os meus heróis. Os Rolling Stones foram os meus heróis. Beethoven foi certamente o meu herói. Jackie Wilson. Charlie Parker foi o maior músico que eu já ouvi em toda a minha vida. O que ele fazia com o instrumento - Eu nunca ouvi nada parecido. Exceto, é claro, as canções que eu compus”.

"Sgt. Pepper e tudo aquilo; Os Beatles, com os seus cabelos caprichados - eles foram os meus heróis. Eu não sei se eu os plagiei ou se eles me plagiaram, mas eu nunca escrevi alguma letra que tivesse algo a ver com Sgt. Pepper. E estou certo de que nunca compus qualquer coisa que tivesse a ver com aquela estúpida merda que os Beach Boys fizer – aquele Pet Rock, ou seja lá o que for. Mas nós três fomos os melhores, de acordo com os críticos. Eu não gosto de rap. Eu certamente não gosto de Pet Rock. Mas eu amo Sgt. Pepper".

“Se não fosse por mim, não haveria Jimi Hendrix. Estou seguro disso. Aquele museu foi construído para uma pessoa que eu vi em farrapos, que assinou um autógrafo por um dólar para comprar uma garrafa de vinho. As pessoas não conhecem a história. Esse cara que construiu o museu: ele não conheceu Jimi Hendrix. Eu conheci Jimi. Eu adorava Jimi. Olhar para Jimi era como olhar para mim mesmo. A única diferença entre eu e Jimi, pelo que eu me lembro, é que ele ficou mais tempo fazendo show”.

“No que concerne a Forever Changes, eu nunca toquei aquelas canções no palco porque eu achava as canções muito conservadoras. Eu achava que as pessoas não estavam preparadas para uma banda inter-racial, quanto mais para alguém com a mente de um Malcolm X ou de um Martin Luther King Jr. – alguém que realmente criou a primeira banda inter-racial. As coisas que eles falavam, eu estava fazendo. Diabos, eu pegava todas as garotas brancas enquanto ele (Martin Luther King Jr.) estava caminhando pelas ruas de mãos dadas com outras pessoas e falando sobre julgar as pessoas pelo seu caráter. Eu estava fazendo essas coisas. Eu criei a primeira banda inter-racial. Eu criei a primeira canção de punk rock, '7 and 7 Is'”.

“Eu fui convidado para visitar o Parlamento quando eu estava na Europa. Eles me trataram com o maior respeito. Eles se ajoelharam com os seus ternos e curvaram as cabeças para mim. Eles me fizeram perguntas como 'Quantas vezes você já foi convidado para visitar o Congresso ou a Casa Branca?'. A Casa Branca? Merda! A única casa branca para a qual eu já fui convidado foi uma que minha mãe e meu padrasto pintaram de branco”.

“Eu nunca fui viciado em heroína. Pergunte para alguém, sabe o que eu digo? Pergunte para algum traficante quando é que eu comprei alguma heroína dele. Merda!”.

“Eu fiz um puta show. Eu entretenho as pessoas. Você não precisa acreditar em mim, eu te mostrarei. O que eu estou fazendo agora é a turnê 'Prove'”.

SESSÕES DE GRAVAÇÃO DO LOVE NA GRAVADORA ELEKTRA (1966-1968)



O LP homônimo de estréia do Love foi gravado em quatro dias no Sunset Sound Recorders (6650 Sunset Boulevard), em Hollywood. As sessões começaram às sete horas da noite do dia 24 de janeiro de 1966, quando foi gravada a parte instrumental de quatro canções (incluindo “Can’t Explain” e “No Matter What You Do”), com Bryan Maclean na guitarra rítmica, Johnny Echols na guitarra solo, Ken Forssi no baixo e Arthur Lee na bateria.

Aparentemente, os membros do Love estavam um pouco incertos ou inseguros sobre as habilidades de Snoopy Pfisterer na bateria (ele se juntou ao grupo principalmente para substituir o sempre imprevisível Don Conka, famoso por “Signed D. C.”) e não estariam até a sessão do dia seguinte, quando Snoopy tomaria o seu lugar na bateria. Em 1971, Snoopy lançaria luz sobre essa situação, em uma entrevista para a revista Zig Zag: “Eu era um baterista bastante limitado, e eles não queriam que eu ficasse perdendo tempo, fazendo experiências, ou qualquer merda dessas. Então, Arthur assumiu as baquetas e tocou bateria nas canções em que eu não estava me saindo bem”.

Em 25 de janeiro de 1966, o grupo completo, com os seus cinco membros, estava preparado para duas sessões de gravação, começando às quatro horas da tarde. As três canções gravadas nessa data incluem “You’ll Be Following” e o single de estréia na Elektra, “My Little Red Book”. O dia 26 de janeiro de 1966 seria o último dia de gravação para o álbum, com seis canções registradas, incluindo “Hey Joe”, “Signed D. C.” e “Softly To Me”, de Bryan Maclean.

Arthur e Snoopy se alternaram na bateria durante esta gravação, dividida em duas partes, embora a única canção gravada nesse dia que apresenta o Sr. Pfisterer na bateria seja a raríssima “Nº Fourteen” (que não foi incluída no álbum e que havia originalmente intitulada “Virginia – Get Me Straight”). A edição final (vocais, tamborim e harmônica) e a mixagem do LP Love foram completadas nas duas sessões de três horas cada no dia 27 de janeiro de 1966.

Notas adicionais: datas de gravação e ficha técnica das canções “A Message To Pretty” e “My Flash On You” são desconhecidas. É possível que essas faixas tenham antecipado as sessões de gravação ocorridas em janeiro. Uma faixa inédita conhecida como “Red Light, Green Light” foi gravada durante a sessão de 26 de janeiro. No entanto, nunca ficou claro se a gravação dessa faixa foi completada.

O Love retornou ao estúdio Sunset Sound Recorders em 20 de junho de 1966 para gravar seu segundo single pela Elektra, “7 And 7 Is”. Embora a formação do grupo tenha permanecido a mesma basicamente do álbum de estréia, esta foi a última sessão de Snoopy como baterista do grupo. Por volta do take 30 da extensa sessão de gravação desta canção, Arthur assumiu as baquetas. Jac Holzman, que produziu a sessão, relembra: “Houve problemas. Arthur alternou take após take com Snoopy, mas finalmente completamos. A canção tem muita energia”.

O grupo pegou leve na segunda metade dessa sessão, quando eles gravaram a canção “Hummingbirds”, projetada para ser o lado B de “7 And 7 Is”. Esta faixa acústica era um perfeito contraste ao poderoso folk rock psicodélico do Love, ao invés de prenunciar a qualidade onírica dos trabalhos posteriores do grupo. Embora “Hummingbirds” não tenha sido finalizada durante esta sessão, ela seria regravada um ano depois para ser incluída no álbum Forever Changes, sob o título “The Good Humor Man He Sees Everything Like This”. No lugar desta, o lado B de “7 And 7 Is” ficou sendo uma faixa que foi descartada do primeiro álbum, “Nº Fourteen”. O compacto foi lançado em julho de 1966.

As sessões de gravação para o segundo LP do Love, Da Capo, foram completadas no espaço de cinco dias nos estúdios da RCA Victor, em Hollywood (6363 Sunset Boulevard). A formação do grupo se expandiu e incluiu o baterista Michael Stuart (egresso da banda Sons Of Adam) e John Barberis (creditado no álbum como Tjay Cantrelli) no sax e na flauta. Por outro lado, Snoopy concentrou esforços no cravo e no órgão. “Orange Skies (composição de Bryan Maclean) foi a primeira faixa a ser gravada durante as três sessões de gravação de três horas de duração cada uma, ocorridas no dia 27 de setembro de 1966. Da mesma forma, “!Que Vida!” (originalmente intitulada “With Pictures And Words”) foi gravada no curso de nove horas no dia 28 de setembro. Três sessões em 29 de setembro renderam “She Comes In Colors” (originalmente intitulada “By The Clothes She Wears”) e uma breve sessão de gravação no dia seguinte rendeu “Number One”, que foi posteriormente renomeada como “The Castle”. As gravações finais para Da Capo – “Stephanie Knows Who” e a maratona “Revelation” (originalmente intitulada “John Lee Hooker”) – foram completadas em 2 de outubro.

As sessões de gravação para o terceiro LP do Love, Forever Changes, produziram as mais extraordinárias gravações do grupo, mas houve uma série de contratempos quando os trabalhos para a confecção do álbum começaram em meados de 1967. Conforme relembra o produtor-engenheiro Bruce Botnick, “Forever Changes começou como um projeto que seria originalmente produzido por mim e por Neil Young. Quando estávamos em cima da hora, Neil se mostrou indisponível para os trabalhos por causa de suas obrigações com o Buffalo Springfield. O Love estava atravessando um período terrível. Arthur tinha todas essas grandes canções, mas a banda se encontrava desunida. Eu estava preparado para gravar o álbum com Arthur cantando e tocando suas canções, com o apoio de músicos de estúdio”. Em 9 de junho de 1967, uma sexta-feira, o grupo entrou no Sunset Sound Recorders com o acompanhamento de músicos de estúdio. Botnick relembra: “Arthur tocou guitarra e nós trabalhamos nos arranjos e [os músicos de estúdio] gravaram duas canções em três horas. ‘The Daily Planet’ e outra [‘Andmoreagain’], que estão no álbum. O grupo estava presente também, e eu me lembro de ter ouvido queixas físicas durante a sessão. A banda estava tão chocada, tão deslocada, tão machucada, que isso os fez esquecer um pouco os seus problemas e se tornar uma banda novamente. Nós guardamos as duas faixas porque estavam boas, mas fizemos algumas edições para fazer ficar mais parecido com a banda”. Essas edições foram feitas em duas sessões separadas de três horas cada, em 10 de junho (“The Daily Planet”) e 12 de junho (“Andmoreagain”).

O Love (que agora consistia em Arthur Lee, Johnny Echols, Bryan Maclean, Ken Forssi e Michael Stuart) não retornou aos trabalhos de Forever Changes até o dia 11 de agosto de 1967, quando seis horas de gravação produziram “Live And Let Live” e “The Good Humor Man He Sees Everything Like This” (outras edições na faixa “Andmoreagain” foram feitas nesta data). Duas outras sessões de três horas cada em 12 de agosto renderam as canções “You Set The Scene”, “Bummer In The Summer” e “Old Man”.

Depois de outro longo mês de descanso, o Love retornou ao Sunset Sound em 10 de setembro de 1967 para a rodada final de gravações de Forever Changes. Nessa data, eles gravaram “A House Is Not A Motel”, “Maybe The People Would Be The Times Or Between Clark And Hilldale” e a faixa de abertura, “Alone Again Or” – tudo isso no intervalo de três horas. Cinqüenta dias depois, a última sessão de gravação para o álbum produziu “The Red Telephone”, ao lado de uma faixa desconhecida intitulada “Wonder People” (nesta data também foram efetuadas edições adicionais na faixa “The Daily Planet”). A orquestra de cordas e os arranjos de metais de David Angel foram adicionados às gravações finais durante os últimos dias de setembro de 1967. A seção de cordas consistia em Darrell Terwilliger, Michael Sosson, James Getzoff, Robert Barene, Arnold Bellnick, Jesse Ehrlich e Norman Botnick. A seção de metais era composta por Richard Leith, Roy Caton, Bud Brisbois, Oliver Mitchell e Charles Berghoffer. O piano ficou a cargo de Don Randi.

A última sessão de gravação da formação original do Love aconteceu em 30 de janeiro de 1968, no Sunset Sound Recorders, com Arthur Lee como produtor e John Haeny como engenheiro de som. A canção “Your Mind And We Belong Together” foi finalizada em 44 takes, depois de uma grande rodada de discussões entre Lee e o resto do grupo sobre como aperfeiçoar esta peça musicalmente complexa. O lado B de “Your Mind And We Belong Together” era “Laughing Stock”, que foi gravada na mesma data, em duas partes separadas, a parte acústica e a parte elétrica, em um total de dez takes.

Nota adicional: Embora haja muitos rumores, até hoje não foram encontradas evidências da existência de um álbum chamado Gethsemane, que teria sido supostamente gravado pela formação original do Love.